sábado, 7 de abril de 2012

Alice


09:47 am. Uma figura feminina posiciona suas mãos espalmadas em uma das paredes brancas de um banheiro de hotel enquanto milhares de pingos d’água gelada caem sobre sua cabeça  como uma chuva agridoce de pensamentos, sensações e saudade. Gotas de sua tempestade percorrem seu corpo e fazem o caminho por onde o amor passou. Vinte de dezembro de 1994, terceira-feira, há uma lua bonita lá fora. Pelas ruas se veem muitas pessoas carregadas de sacolas e grandes pacotes com motivos natalinos, atividade comum no mês em que o espírito natalino lidera as vendas. Em frente ao Palácio Avenida, em Curitiba, Alice fotografa as pessoas que passeiam e observam as luzes de natal travestida com um vestido preto e botas vermelhas. Sentada num banco de praça ela folheia uma revista vagarosamente como quem tenta matar o tempo de tédio, só pra vê se ele se apressa e passa mais rápido. Ela tem pressa. Pressa, tem urgência e um coração sempre enfermo de inúmeras e insaciáveis vontades. A hora chegou. Nossa moça atravessa a rua depressa. Enfim o seu momento. Num apartamento iluminado por milhares de vagalumes industrializados afixados no prédio suntuoso a frente ela se despi. Mostra a quem por algum tempo esperou na praça que o pouco tempo foi muito, demais pra ela. O vento gelado que balança as cortinas da janela entreaberta acarinha a aveludada pele da guria, mas o que a faz tremer são os olhos fixos do homem que a fita sentado com um meio sorriso no rosto. Alice se entrega. As grandes mãos de seu verdugo percorrem lentamente seu corpo, bem como seus lábios. Trêmula como uma folha ao sabor do vento, ela repousa imóvel naquela cama, refém do próprio desejo, paralisada pelo querer. Seu senhor repousa-se lentamente sobre seu corpo e enquanto beija seu colo com ternura. A doce moça tem as pernas entrelaçadas ao redor do corpo do seu amado, a fim de não atravessar porta que dá saída do paraíso, e sussurra todas a suas intenções na orelha dele. Ele agarra-lhe os cabelos, segura firmemente os quadris e os dois entram numa dança de passos rápidos e firmes. Alice aperta os olhos e com a mesma força solta um grito que foi ouvido muito além das estrelas, que reconfortou sua alma e quase fez parar o coração. Naquele chuveiro de pingos grandes e frios, não suficientemente frios para inibir as sensações provocadas pela lembrança, Alice pega fogo. Sente como quem teve o corpo  incendiado e chora. Chora de saudade. Saudade do que foi e não volta mais.